ARTIGOS

PAPAI NOEL MERCENÁRIO! (QUE PAPELÃO, SHOPPING FLAMBOYANT!)

Vejam que negócio mais chato e sem sentido, francamente. O Shopping Flamboyant pôs um Papai Noel pra atender crianças, bater fotos, aquela coisa bem tradicional do período natalino. Como nessa época o shopping lota, obviamente formam-se filas para tirar foto com o bom velhinho. O shopping tá cobrando uma grana pra tirar uma foto com o Papai Noel. Para alguns mais abastados, eu diria que a maioria dos que vão até ali, pode até não fazer maior diferença. Está tudo tão mercantilizado, que a gente encara isso com normalidade: trata-se de um serviço, que consome quem quer. O preço é caro, a foto é caprichada, vem dentro de um folder colorido, tudo muito bem feito, etc. e tal. 

Todavia, é conhecida a situação de famílias mais pobres que frequentam o shopping. Bater perna por lá é seguro – embora, como visto recentemente, nem tanto… – e gratuito, menos pra quem tem de pagar aquele estacionamento, que em si mesmo já é um quase assalto. Enfim, a família vai ao shopping, passeia com as crianças, faz um lanche, típico programa de domingo. E, já que o Papai Noel está lá, obviamente que os pequenos querem tirar sua foto com o símbolo do Natal. Nessas condições, sendo sabidamente alto o preço do cartão luxuoso com a foto com o Papai Noel, vale tirar uma foto em máquina própria ou mesmo no celular, só isso já agrada às crianças, que ficam com a doce lembrança do evento. Peraí: eu disse “vale tirar uma foto”? Pois é, VALIA! Não é que resolveram cobrar uma graninha daquele que tirar fotos de suas crianças com o Papai Noel, com a própria máquina?

Ah, alto lá, aí não, isso é um abuso inadmissível. Infelizmente, acontece a óbvia cena de parentes indignados, crianças frustradas, ao verem o coleguinha mais bem vestido todo contente, carregado de presentes,  e ainda tirando a sonhada foto, enquanto os mais humildes ficam olhando e chupando dedo! Que raios de espírito natalino é esse?!? E que fúria mercantilista, mercenária: como disse antes, não basta cobrar estacionamento de quem vai até lá gastar os tubos nas lojas, agora precisa fazer um papel ridículo e vergonhoso desses? Sei que o assunto já rendeu nas redes sociais e muita gente já debateu a esse respeito, mas convenhamos: acaba-se por tratar de forma preconceituosa meninos e meninas, em tenra idade, que percebem a dura realidade e diferença social escancarada à sua frente, em realidade na qual fazem o papel de vítimas inocentes.

Caramba, logo no Natal, em que se propaga o espírito solidário entre os homens, agir desse jeito é de uma falta de sensibilidade impressionante. Será que um shopping rico e movimentado como esse e seus marqueteiros profissionais não percebem que poderiam perfeitamente usar a imagem do Papai Noel de uma forma mais positiva, rendendo benefícios à imagem do Flamboyant muito mais valiosos que a merreca certamente arrecada com essa política estúpida? Que, no mínimo, se cobre de quem quer e pode pagar pelo folder bonito e caprichado, mas que se permita que outros, especialmente os mais humildes – que, não nos enganemos, circulam por ali aos montes -, possam livre e gratuitamente tirar suas fotografias, guardar a lembrança do dia e alegrar seus filhos.

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Nos debates que se seguiram no Facebook, após a publicação do texto acima, foi dito que o dinheiro arrecadado seria revertido a uma instituição beneficente e que a “promoção” não seria do Shopping Flamboyant. Penso que a primeira alegação, se procedente, não minimiza o caráter deletério da medida, e a segunda é falsa.

Ora, chamar isso de “doação” é fazer um uso muito largo da palavra. Em suma, caso seja mesmo essa a destinação dos recursos (não há nenhuma indicação disso por lá), o shopping fica com a imagem de instituição responsável e preocupada com as carências sociais, mediante o repasse de recursos cobrados de seus clientes.

Por outros termos, se quisesse MESMO doar recursos e auxiliar uma instituição de caridade ou beneficente, bastaria ao shopping doar-lhe uma mísera fração de seus lucros. Na forma feita, não há doação nenhuma: os recursos que vão ao hospital são COBRADOS de quem tira a foto. Eu sou um capitalista convicto, mas tudo tem limite: é doação ou não é? Pois bem, que DOE quem quer DOAR. Que pague pelas fotos quem pode pagar por aquele produto bem acabado, e com a satisfação de saber o destino nobre de seu dinheiro, mas sem cobrar de quem não pode e só tira uma foto, sem custo algum para o shopping. Fora daí, é enganação das grossas.

Em segundo lugar, é lógico que a promoção é do shopping, direta ou indiretamente. Toda a propaganda feita se refere obviamente ao Shopping.

Com tristeza, os fundamentos seguintes de quem defende a medida ou promoção do shopping parecem-me carregados de preconceito: “tem Papai Noel de graça na Praça Cívica”; “durante a semana, o shopping deixa que tirem fotos de graça”. A discriminação é odiosa e sequer se esconde nas entrelinhas, antes é expresso: pobre só pode tirar foto durante a semana no shopping, nos fins de semana, que vão para a Praça Cívica! Parece uma fala populista, mas é exatamente isso que ocorre.

Não me convence o argumento de que o shopping visa mesmo ao lucro, que isso é próprio do sistema capitalista.

Queira-se ou não, sendo verdadeira ou não a intenção, o fato é que os lojistas emulam, sim, o espírito natalino em suas propagandas maciçamente transmitidas em TVs, rádio e jornal. O acesso aos shoppings é obviamente livre e pessoas de todas as classes sociais afluem àquele espaço de convivência e compras. Crianças, inclusive. E a frustração, baixa estima e/ou constrangimento de uma única delas que fosse, ansiosa por uma mísera foto, mas impedida de tirá-la, mesmo com uso da máquina de seus próprios pais, é bastante para a condenação dessa medida, ditada pela natural sede de lucro capitalista. Nem tudo é legítimo e moral, e uma atitude que estimula o preconceito não merece aprovação social.

Em tempo: do ponto de vista exclusivamente capitalista, objetivo, pautado pelo lucro, essa medida antipática é um tiro no pé, como se pôde notar dos debates travados naquele pequeno foro das redes sociais. Ali, nenhum participante é afetado pela medida do shopping e, nada obstante, a imensa maioria divergiu com veemência e inconformismo ante tal atitude.

Assim, o shopping poderia perceber o erro e, humildemente, reverter a medida. Seria aclamado. Mas não. Além de tudo, é de uma falta de visão empresarial de lascar. Os outros shoppings de nossa cidade deviam aproveitar a oportunidade para seduzir esses mesmos clientes inconformados com esse descalabro.

Só pra lembrar: os shoppings paulistas, os mais elitizados do país (Eldorado, Iguatemi, Cidade Jardim) não cobram por foto com o Papai Noel. Isso é uma insensatez e uma incrível, inacreditável falta de sensibilidade.