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Flamengo no Serra Dourada: outra experiência inesquecivel

Hoje, depois de um longo e tenebroso inverno, voltei a frequentar estádio de futebol. Não tenho ido, primeiro porque meu time de simpatia daqui, o Dragão goiano, tá mal das pernas. Segundo, porque meu time de coração, o Mengão, não joga por  estas bandas há mais de ano. Por fim, porque jogo do Brasil pra mim não dá mais, não consigo nem torcer, a seleção virou selecinha há muito tempo, só dá pra vibrar na Copa do Mundo, e olhe lá.

Acontece que vieram de Brasília, para assistir a Flamengo e Atlético-GO no Serra Dourada, meu amigão, parceiro e compadre Bruno Pereira e meu afilhado Gabriel, garoto esperto, rubro-negro de boa cepa e que fazia sua estreia em estádio. Peguei meu sobrinho Bruno Dias e fomos pra lá, onde nos encontramos e nos juntamos ao amigo Rodrigo (Turcão) e meu chefão Kleber Waki, este com sua filha, a linda Mariana. Na entrada do estádio, na fila que não andava nem a poder de reza (dá-lhe, desorganização e desrespeito pelo torcedor!), encontrei o amigo esportista e rubro-negro de coração Edson Braz da Silva , um bom prenúncio. Em suma: tudo certo, beleza, tinha criança na jogada, então fomos de cadeira, como programado.

A companhia era, assim, ótima, mas eu realmente não ando animado com futebol. Ocorre que hoje tinha Mengão na parada. Pena que um Flamengo tão ruim, na parte de baixo da tabela de classificação, com um monte de perebas no time, que me deixa bem descontente. No entanto, é entrar no estádio, ver e me juntar àquela incomparável torcida (os torcedores dos times menores, ou seja, todos os outros, me desculpem, mas não tem torcida que chegue nem perto da do Mengão) e a paixão rubro-negra reacende, uma coisa inexplicável. Um sentimento que remete ao fim dos anos 70 e, especialmente, aos incríveis anos 80, em que Zico, Leandro, Junior e tantos craques deram as maiores alegrias esportivas da minha vida. Dali em diante, o benigno vírus rubro-negro corre no meu sangue e de vez em quando o coração faz esse sangue circular mais rápido e as veias jorram, saltam, e gritam “Vamos, Flamengo!!”.

Neste parágrafo, só neste, vou tentar fazer com que a paixão clubística não me cegue e eu consiga ser isento. Objetivamente aos fatos, então: havia 25 mil pessoas no estádio. Sendo bastante benevolente com a torcida do Atlético, que normalmente conta com meu apoio, havia ao menos 20 mil rubro-negros (“rubro-negro (a)”, pra mim, neste contexto e neste texto, é um integrante ou a própria torcida do Flamengo). Isso pra um time que está na posição de porteiro da zona de rebaixamento (ou seja, uma posição acima dela), com um time ridículo para suas tradições, que vem dando seguidas decepções para seus torcedores e que estava jogando a uns mil quilômetros de sua sede, já é extraordinário. Muito bem, mal começou o jogo e o valoroso Atlético marca seu gol. Começamos mal, mas… peraí, a torcida do Dragão ainda está comemorando e de repente sua folia é engolida pelo grito em uníssono de “Mengo!”. A torcida rubro-negra pula e faz a maior festa, parecia que o gol era a favor do Flamengo. Foi bacana de ver e de participar. Segue o jogo, o Flamengo virou, venceu a partida. Isso é o de menos, pra mim, até porque eu, como já disse, gosto do Atlético e lamento muito sua provável queda para a segundona do ano que vem. O impressionante mesmo foi o comportamento da torcida, que apoiou todo o tempo, gritou sempre. A verdade é que o Flamengo jogou em casa. Jogo findo, fomos pro Flamboyant. Negócio de louco: metade do shopping vestia o manto sagrado, ou seja, a camisa do Flamengo. Na fila do Burger King, TODOS os clientes, quando o Brunão foi atendido, tinham a camisa do Flamengo, o que chamou a atenção da atendente (“nossa, só tem cliente com a camisa do Flamengo!”).

Ah, se o Flamengo fosse organizado… não ia ter pra ninguém! Um time que tem torcida em tudo que é rincão deste país, não apenas no seu Estado de origem, que tem maioria de torcedores em tudo que é classe social (e, sim, com mais força ainda entre as mais baixas, o que é motivo de orgulho), se tivesse dirigentes minimamente competentes, seria uma potência sem adversários à altura por aqui. Mas as coisas são como são, e o clube é aquela bagunça sem tamanho, com dirigentes despreparados e amadores. Quem sabe um dia, a gente chega lá. Enquanto isso, o Fla fica sendo apenas o maior vencedor do título estadual que disputa, hexacampeão brasileiro, bicampeão da Copa do Brasil, campeão da Libertadores e Mundial, com vantagem nos confrontos diretos contra os seus maiores rivais, dono da maior torcida do país, além de ter o insuperável Zico como ídolo maior, exemplo e modelo a seguir. Não é pouco, mas podia ser muito mais.

Dizem que Nelson Rodrigues era tricolor. Sei não. Considerando muito do que escreveu, acho que era um rubro-negro enrustido. Fez certa feita a seguinte citação sobre o manto sagrado (como bem diz meu grande amigo Vitor Rafael Porto, outro flamenguista alucinado, o manto também poderia ser chamado de “passaporte diplomático”, pois abre portas e ajuda a fazer amizades quando usada no exterior):

“Há de chegar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no arco. E, diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável.”

Apesar das decepções recentes, pelo orgulho deste domingo e por tantas alegrias já vividas, só posso dizer: obrigado, Flamengo!

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