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DIA DE PROTESTOS POR TODO O PAIS. O QUE SIGNIFICA ISSO TUDO?

Ao fim do dia ou noite de protestos Brasil afora, confesso que fico com uma sensação de perplexidade com tudo o que vejo, ouço e leio a respeito. 

Tenho amigos queridos e admiráveis que foram às ruas e genuinamente acreditam na contribuição que esse movimento todo pode dar ao país. Tomara que sim, francamente! Mas eu tenho cá comigo minhas dúvidas, próprias de alguém cético por natureza, que ganha a vida analisando fatos e teses esgrimidas por partes antagônicas, em que em regra alguém está mentindo.

Minha dúvida mais clara, quanto ao mérito dos protestos, é acerca de sua pauta, seus propósitos, um tanto difusos e incertos, segundo minha limitada percepção. O que se combate afinal? “Ah, todos pregam contra a corrupção!”. Ora, mas é óbvio, quem poderia ser contra isso?!? “Protesta-se contra os abusos dos políticos!”. Idem, mas qual a proposta real, o que se pretende erigir no lugar da ordem vigente?

Já fui às ruas e, modestamente, liderei parte de um movimento que buscava, então, destituir um presidente comprovadamente corrupto. Fui a faculdades, falei com inúmeras turmas de alunos, participei de passeatas e protestos, escrevi artigos, entreguei listas abaixo-assinado a lideranças partidárias do Congresso Nacional. Eu era um moleque abusado – rs. Ali, o objetivo era claro: o impeachment do Presidente da República. O que querem, especificamente, os manifestantes?

Se me chamarem pra protestar contra a atual forma de se fazer política e eleições, pregando por exemplo o voto distrital, o fim do horário eleitoral, vou na hora; se me convocam para protestar e exigir a punição efetiva e não apenas formal aos mensaleiros condenados pelo STF, nem titubeio em ir com tudo para as ruas; se a idéia for protestar contra essa política nefasta de cooptação de apoio de partidos políticos mediante distribuição farta de cargos públicos, animo-me a gritar nas ruas até ficar rouco; e assim para vários outros temas:combate ao nepotismo, fim do cargo de suplente de Senador, etc. Em todos os casos, sem exceção, eu tomaria parte sem cogitar de destruição de patrimônio público ou privado, nem de obstruir as vias públicas mais movimentadas, em prejuízo de quem trabalha e quer exercer o direito legítimo de ir e vir.

Agora, sem saber ao certo porque estou ou estaria gritando e pregando, pra mim não dá. Pior ainda: sair às ruas para protestar contra aumento de passagem de ônibus em índice inferior à inflação, aí não vou mesmo, porque discordo. “Não existe almoço grátis”, sentenciou um economista, em fria, mas precisa, análise. Sim, o preço das passagens não será majorado, mas a que custo? Ora, do corte de investimentos em outras áreas, como é óbvio. A tarifa dos transportes pode permanecer inalterada, mas os custos sobem com o tempo. Combustível, salário de motoristas e cobradores, veículos, manutenção, etc., nada disso é de graça, nem cai do céu. Ao contrário, alguém vai pagar por isso. Adivinhem quem… A propósito, leio manchete no site da Folha: “Alckmin anunciará na sexta corte de investimentos”. Pois é, isso é inevitável e ocorrerá em todas as capitais e localidades em que o governo tenha de subsidiar o transporte público. Enfim, não será tentando encontrar a quadratura do círculo que se resolverão os problemas do país.

Aliás, basta dar uma zapeada no Google sobre o tal Movimento Passe Livre – MPL para encontrar pérolas como esta: “o Comitê defende a histórica bandeira do movimento estudantil de passe livre para estudantes, mas junto coma reduçãod a tarifa de modo a não jogar sobre as costas do conjunto que paga o custo do passe livre, como é feito hoje. Estas duas bandeiras se combinam com a luta pela estatização do transporte coletivo sem indenização e sob controle dos trabalhadores e usuários, indicando de saída que uma verdadeira solução não poderá ser alcançada pela concessão graciosa dos [sic] empresários e dos políticos. Ao contrário, a luta pela redução da tarifa e o passe livre se vincula {sic] à luta mais geral contra o capitalismo.” (confira-se emhttp://passelivrelondrina.blogspot.com.br/ o comentário completo, “postado por Comitê pelo Passe Livre, redução da tarifa e estatização do transporte coletivo”).

Cruz credo!! A tal “luta mais geral contra o capitalismo” já foi tentada em vários lugares e o resultado é sempre o mesmo: mortes em massa, totalitarismo, supressão de liberdades e ineficiência econômica. Estatização do transporte público? Ficará tão melhor quanto são melhores as escolas públicas em relação às privadas, os hospitais públicos em relação aos privados, a TV pública em relação às privadas, e por aí vai. Esse pessoal vive neste século mesmo? Já ouviram falar do Muro de Berlin? Se são essas as lideranças do movimento popular, estamos mal. Mas não creio que sejam, embora estejam na crista da onda: a pauta, antes concentrada nessa questão do preço das passagens, foi estendida, ainda que para algo mais amplo, incerto e difuso, como escrevi acima.

Aliás, sou capaz de apostar que logo logo os líderes do MPL arrumarão uma boquinha qualquer no governo, um carguinho, uns patrocínios, pois é essa a forma como vem sendo administrada a Nação, um dos aparentes motivos, de revolta dos manifestantes de hoje. O MPL publicou nota em sua página no Facebook criticando a repulsa dos manifestantes à participação de partidos no movimento, sinalizando querer esse apoio – e, no futuro, aposto, as benesses do Estado.

Outra dúvida – na verdade aí já é uma restrição mesmo – que tenho sobre tudo isso é acerca dos reiterados atos de vandalismo e depredação ao patrimônio público e privado que esses movimentos vêm causando. É tanta bandalheira que fico indeciso quanto à natureza pacífica do movimento – sem com isso deixar de reconhecer a presença maciça de pessoas bem intencionadas e corretas nas manifestações. Todavia, apenas hoje, vi e li em jornais (transcrevi ao pé da letra alguns trechos das notícias):

– Em Brasília, manifestantes atearam fogo em frente ao Palácio do Itamarati, jogaram contes, pedras e cartazes em chamas e quebraram vidraças. Alguns invadiram o prédio e foram retirados pela polícia. Além disso, também foram alvo de depredação e vandalismo outros prédios da Esplanada. Manifestantes jogaram pedras e trincaram vitrais da Catedral, que também teve a porta pichada com os dizeres “666 the number of the beast” (o número da besta).

– Em Salvador, ônibus foram incendiados, agências bancárias tiveram os vidros quebrados, lojas foram arrombadas e saqueadas e manifestantes tentaram invadir o Palácio de Ondina, sede do governo estadual, o Estádio da Fonte Nova e o hotel em que se hospeda o estafe da FIFA.

– Em Vitória (ES), manifestantes atacaram prédio do TJ, lojas e pedágio, destruindo tudo o que vinha pela frente.

– No Rio, houve confronto entre a polícia e manifestantes, com saques e depredações no centro da cidade e na Zona Sul. Transcrevo um trecho da notícia que li, que me causa mais revolta que qualquer outro sentimento: “Uma filial das Lojas Americanas, localizada na rua do Passeio, foi saqueada. A porta de ferro foi arrombada e vidros foram quebrados. Alguns manifestantes saíram do local carregando televisões de tela plana.” Precisa falar mais?

Pior ainda: em Ribeirão Preto, um motorista deliberadamente atropelou um manifestante que integrava uma barreira em uma avenida de grande movimento da cidade. O manifestante morreu. Francamente, até demorou, com tudo isso, a aparecer a primeira vítima fatal. O motorista criminoso, no caso, tem de ser punido com rigor, como é óbvio. No entanto, essa é uma possível consequência dessa noção equivocada de que é preciso atazanar a vida da população para que os protestos ganhem cobertura maciça da imprensa. Interditam-se as vias de maior movimento das cidades, paralisa-se o trânsito, impede-se o cidadão de chegar ao seu trabalho ou à sua residência. No limite da irritação, alguém quem não apoia ou é indiferente ao movimento, de forma injustificável e criminosa pode extrapolar e é previsível que fatos como este venham a ocorrer.

Já escrevi num post anterior e repito: os movimentos populares mais decisivos e efetivos de que vivenciei ou tomei parte, o das diretas-já e do impeachment do Presidente Collor, não contaram com atos de vandalismo, depredação e as grandes manifestações se deram em grandes praças (Vale do Anhangabaú, Praça da Candelária, Praça dos Três Poderes, etc.), sem atrapalhar o trânsito e acesso às vias públicas, e nem por isso a imprensa deixou de cobrir incessantemente, como deveria, tais atos.

O resumo disso tudo é minha impressão de que, nesse movimento em que muitos tomam parte com espírito de verdadeira cidadania, perdeu-se a noção de civilidade e dos limites legais em sucessivos casos.

A impressionante e nem sempre justa saraivada de críticas de toda ordem à Polícia Militar e às instituições policiais e de segurança em geral é outra faceta deletéria desse movimento. Os policiais podem, claro, cometer excessos, que devem ser apurados e objeto de punição, quando verificados. Todavia, são convocados para seu trabalho, arriscam suas vidas, cumprem seu dever de ofício e, no caso, na maior parte das vezes reagem aos excessos dos tais radicais que participam do movimento. Parece-me evidente que, no quebra-quebra e na confusão que se forma, inocentes são atingidos, tal como o são os próprios policiais. Pretender atribuir-lhes a pecha de covardes, agressivos, violentos, é injusto. Questiono: se por conta de uma minoria radical e criminosa, não se pode criminalizar os manifestantes em geral, por que se trata a instituição policial, em geral, como se fosse violenta e covarde, por força da eventual ação excessiva de uma minoria de seus integrantes? Ademais, dado o salário que a maioria recebe, os policiais são uma expressão muito genuína do que seja o “povo”, no sentido daqueles que lutam com dificuldades pela sobrevivência – ao contrário de vários manifestantes de tênis Nike e IPhone, ainda que deter situação econômica mais confortável não seja motivo para acomodação e ausência de adesão a protestos. Em muitos casos, a maioria, os policiais têm tomado um cuidado até excessivo, em vista da patrulha que a imprensa tem feito contra eles, talvez temerosos das críticas que venham receber até mesmo ao cumprir estritamente seu dever.

A propósito, o caro amigo Aldemiro Dantas, competente juiz em Manaus, mandou a seguinte narrativa para uma lista de debates de que fazemos parte:

“Aqui em Manaus o protesto foi pacífico na sua quase totalidade. A banda da PM chegou a tocar a música “Eu, sou brasileiro, com muito orgulho…” para que os participantes pudessem cantar. Lamentavelmente, uns mentecaptos idiotas do PC do B chegaram em 15 ônibus alugados e com um carro de som, convocando o povo para ir para a sede da prefeitura. Como foram vaiados e escorraçados, e impedidos até mesmo de erguer suas bandeiras (o povo gritava “sem partido! sem partido!”), foram sozinhos para a sede da Prefeitura e por lá tocaram fogo em ônibus, depredaram a sinalização das vias públicas, quebraram os vidros do prédio da prefeitura, etc. A PM estava parada, só olhando, de longe, e os caras chegavam perto para jogar pedras e paus nos policiais. Sinto muito pelos que discordam, mas nesses arruaceiros eu acho mesmo que a polícia deveria baixar o sarrafo (infelizmente não o fez), e não conheço um lugar do mundo em que a polícia ficaria quieta ao ser agredida e diante da depredação do patrimônio público.”

Eu assino embaixo e louvo suas palavras – e espero que ele não se importe de eu as reproduzir aqui, nem me processe por isso. rs

De tudo, algo que pessoalmente me causou mais repulsa foi a tentativa de partidos políticos de aderir aos protestos, como se não fossem eles os aparentes destinatários mais visíveis das críticas dos manifestantes. O PT, como não poderia deixar de ser, tomou a frente da iniciativa oportunista: em nota oficial, seu presidente convocou a “militância” (é aquele pessoal que faz até vaquinha para custear a defesa de heróis e patriotas como José Dirceu e outros corruptos, quadrilheiros e peculatários) para aderir ao movimento. Putz, aí chega a me dar nojo. O noticiário dá conta de que os manifestantes repudiaram as manifestações partidárias nos protestos, o que ao meu ver faz todo sentido.

Não sei como foram os protestos na minha cidade, Goiânia. Espero que tenham sido pacíficos, democráticos, sem violência e depredação. Acredito que assim tenha sido, o que, então, me orgulharia – e, se foi e for mesmo dessa forma, desde que esclarecida a pauta, como já disse, eu estaria pronto a formar fileiras com os manifestantes, mesmo que isso não representasse quase nada.

Ao fim e ao cabo, espero que meus temores sejam infundados e que o tempo prove que as minhas dúvidas e reticências são injustificadas. E se conclua, afinal, como a maior parte dos manifestantes acredita, que tudo isso realmente valeu a pena!