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CENAS DE HOJE, HORA DO ALMOÇO. LOCAL: CRUZAMENTO DAS AVENIDAS ANHANGUERA E ARAGUAIA, CENTRO DE GOIÂNIA. SE ISSO É UM PROTESTO LEGÍTIMO, SE ESSES SÃO OS MOVIMENTOS SOCIAIS QUE TEMOS, ESTAMOS MUITO MAL!!

Fui ao Camelódromo comprar bugigangas contrabandeadas (vamos falar a verdade, né?). De repente, surge e passa um grupo de umas sessenta, setenta pessoas, seguidos por um carro de som, protestando, gritando palavras de ordem. Logo à frente, uns dez fantasiados de “black block”, panos envoltos na face para não mostrar a identidade. Diziam coisas como “abaixo o imperialismo” e algo que não compreendi direito, mas era “contra a burguesia”. É é ou não é pra dar preguiça? Os caras vêm com bandeiras da UNE, PCdoB e DCE da Universidade Federal, onde em regra estudam justamente jovens de classe média e alta. O líder da turba, microfone nas mãos, voz poderosa e cabeça oca, usava uma camisa do Black Sabbath. Universitários, em escola federal, todo mundo muto bem alimentado, tênis da moda, e gritando palavra de ordem contra a burguesia… ai, ai…Daí, o jovem roqueiro e líder da turma berrou que nos shoppings de Goiânia a polícia – havia dois carros e sete policiais acompanhando a movimentação toda – barra a entrada de pobres e excluídos. Caramba, salvo a possibilidade de eu viver numa Matrix, o cara tá muito louco: que shopping é esse? Onde isso acontece aqui?? Enfim, daria até vontade de rir da pauta atrasada uns duzentos anos, não fosse a violência própria desses caras: dois sujeitos, marginais travestidos de estudantes, saíram do grupo, correram em direção aos carros estacionados na avenida, jogaram uma pedra enorme e deram uma paulada num veículo, um Corsa preto, exatamente na minha frente. Olha, essa depredação – um crime cometido com a maior desfaçatez, na frente de todo mundo, inclusive de dois carros da PM que acompanhavam o protesto – não se justificaria contra carro ou bem nenhum, mesmo que fosse do maior dos milionários, um Eike Batista da vida (tô desatualizado e mau de milionários, é o único nome que me veio à mente – rs). De toda maneira, no caso, certamente não se tratava de um carro de “burguês”, no sentido bocó que eles davam ao termo, pois era um carro popular, já um tanto antigo, estacionado em frente ao camelódromo. Logo, era de trabalhador mesmo – e provavelmente de baixa renda. Esses idiotas – me perdoem adjetivar assim, mas é exatamente o que eu penso e o que senti na hora – não seguem sequer suas convicções alucinadas.

De súbito, as lojas baixam as portas, causando transtornos e prejuízos. Dons da rua, a turba resolveu parar no cruzamento das duas avenidas, instituindo o caos no trânsito. Numa das fotos que eu tirei, uma enorme fila de ônibus estava presa, sem ter como avançar, por conta do protesto dos bacanas, supostos defensores do povo. Os trabalhadores que, naquele horário, voltavam pra casa após um dia e semana inteira de trabalho, que se danassem. Afinal, os seus “defensores” estavam ali pra protestar, defender, proteger e reivindicar pela “classe trabalhadora”. É de lascar!

Nesses tempos de pensamento “politicamente correto” e vitimização de criminosos, sob a tese de que são excluídos e precisam de compreensão, assistir a essas cenas foi um choque de realidade – ainda que eu não tenha mudado um milímetro das minhas convicções. Que dizer então que um grupo, muito minoritário (não havia nem cem pessoas ali) resolve parar o trânsito de uma cidade, destruir propriedade privada – e tudo bem?? Se a polícia fizesse o que penso lhe caber, ou seja, desobstruir a via pública e prender os dois marginais que depredaram o carro, decerto a imprensa cairia de pau nos agentes da lei. Fica parecendo que eles é que são os criminosos ali, os intrusos a atrapalhar um movimento social. Daqui a pouco, um sujeito perde eleição para síndico de prédio, pra líder estudantil ou mesmo as eleições políticas, fica p… da vida e resolve ir com a família, amigos e asseclas interditar uma avenida de grande movimento, pra “protestar”. E ai de quem criticar, afinal ele está exercendo o direito de liberdade de expressão! Há algo de errado nesse permissivismo exagerado!

Ah, sim, pra ser justo com os caras: eles também protestavam contra a má distribuição de renda, contra a Copa do Mundo (diziam que “não vai ter Copa”…) e por conta do preço da passagem de ônibus, pela regulamentação do passe estudantil e pregavam o voto nulo ou em branco nas eleições. Na hora, me lembrei de uma frase célebre (desconheço o autor) que dizia:”o maior castigo pra quem não gosta de política é ser governado pelos que gostam”.

PS – Deixo o pior pro final: depois disso tudo, ao voltar pra casa, meu carro resolveu dar pau. Travou tudo e só saiu de lá a reboque. Sai de mim, ziquizira!! Esse pessoal do protesto pode comemorar: um burguês levou um baita prejuízo!