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AGORA UM POUCO MAIS ESPERANÇOSO – MAS COM A CAUTELA E TEMORES BEM DEFINIDOS – COM OS PROTESTOS POPULARES.

Muito bem. Depois de manifestações de amigos como Juliana Claudia NeriAldemiro Dantas , Rafael Lara Martins e outros tantos, não posso dizer que estou exatamente otimista (já explico), mas ao menos bastante esperançoso de que desse movimento das ruas resulte algo de bom e produtivo para o país. 

Meu otimismo não é maior porque esse movimento e sua abordagem pela imprensa jogam no colo da Polícia, seja lá o que aconteça e não importa a quem combata, a pecha de autoritária, violenta, covarde. É um erro de enorme proporções e consequências. A polícia obviamente não pode reprimir manifestações populares e pacíficas. Todavia, tem a obrigação de combater quem depreda patrimônio público e privado, pela razão óbvia de que isso é crime. Agora, então, a PM, por exemplo, não pode mais prender verdadeiros bandidos, infiltrados ou que se passam por manifestantes querendo democracia? Ora, experimentemos ter um carro nosso revirado, incendiado, uma loja saqueada, etc., para então ver se queremos ou não a intervenção policial. Quando a polícia se excede é preciso apurar e punir com rigor aquele que é pago com recursos públicos e desvirtua sua atuação para agredir cidadãos. No entanto, tem-se demonizado, sim, a atuação da polícia, que na imensa parte das vezes tem combatido mesmo é excessos de depredadores, provocadores, arruaceiros e baderneiros, os quais PREJUDICAM quem está de boa-fé nos movimentos reivindicatórios.

Leio, em segundo lugar, que uma das entidades que deu origem de todo esse protesto, o Movimento Passe Livre – MPL, resolveu retirar seu apoio aos protestos, justamente por conta da reação da maioria dos manifestantes contra a partidarização do movimento, contra as bandeiras desse e daquele partido político, que na verdade são os destinatários de toda essa indignação reprimida. O tal MPL nunca me enganou e está aí a prova: pretendia mesmo usar de sua pauta em benefício de partidos políticos com quem se afinam seus líderes. Eu aposto que estes serão fartamente patrocinados e financiados por órgãos do governo, isso se não vierem a se candidatar a cargos públicos, embalados pela exposição que tiveram. Alguma boquinha terão, disso não tenho dúvida, pois é de sua natureza e desse governo a concessão de cargo público para a companheirada toda.

Isso é um sinal eloquente de que a pauta do movimento se estendeu – para muito além do que pretendia esse pessoal. Nesse sentido, do protesto legítimo e da indignação cidadã, obviamente eu vejo com bons olhos toda essa movimentação.

Meu temor é o desdobramento disso tudo. Chegará o momento em que será necessário posicionar-se de forma mais específica e clara. Todo mundo quer combater a corrupção, a bandalheira, todos queremos melhor saúde, educação e transporte. Como isso tudo será feito? Bem, aí é que mora o perigo.

Suponhamos que a pauta futura incluísse, por exemplo: fim dos Senadores suplentes, não eleitos; fim do horário eleitoral gratuito, uma excrescência que estimula a criação de partidos de aluguel e sua cooptação; fim da indicação livre pelo Executivo de Ministros de Tribunais Superiores, o que faz, por exemplo, com que a Presidente da República indique ao Tribunal Superior Eleitoral dois advogados de seu partido; aumento de salário – e da exigência de qualificação, com recompensa pela produtividade – dos professores e médicos do sistema público de ensino e saúde; exigência de punição efetiva dos mensaleiros condenados pelo STF; combate a qualquer tentativa de cerceamento de atuação da imprensa livre; instituição do voto distrital, para que a gente conheça de verdade e cobre de verdade dos parlamentares que elegemos; combate ao estapafúrdio projeto que pretende submeter ao Congresso Nacional as decisões do STJ, solapando a independência do Judiciário, vinculando-o ao Congresso Nacional; etc, etc.

Reivindicações assim, penso, não têm coloração política, não têm a intenção de beneficiar este ou aquele político, este ou aquele partido, mas sim o conjunto da população. Nesse caso, eu apoio, saio às ruas e, principalmente, nutro a esperança de que chegada a hora, assim os manifestantes se mobilizarão. Por exemplo, poder-se-ia aproveitar o ensejo, o momento, para externar nas ruas que o Supremo Tribunal Federal julgue os recursos, com o rigor da lei e com a rapidez necessários, dos mensaleiros, corruptos, quadrilheiros e peculatários recentemente condenados.

Meu temor é a coisa descambar pra outro lado, e a manifestação popular vir a ser manietada e controlada justamente por aqueles que provocaram todo o estado de coisas que levou o pessoal às ruas. Um exemplo muito claro: o governo pretender usar dos movimentos de ruas para pressionar o Congresso por uma reforma política que atenda a seus exclusivos interesses. Diz-se que se pretende instituir o financiamento público de campanha. Isso é um escárnio. Mais dinheiro público pra propaganda política? A quem se pretende enganar? Dizem que isso vai igualar as chances, as oportunidades de todos. Mentira óbvia: vai-se é despejar mais dinheiro público para os partidos, que seguirão recebendo, por baixo do pano como sempre fizeram, farto financiamento privado de seus apoiadores.

Se quem protesta tiver consciência e não se deixar levar por manipuladores e oportunistas, há a real oportunidade de que ao fim das contas toda essa movimentação realmente dê certo. Seria o desenlace mais feliz possível dessa iniciativa popular legítima.